TESTAMENTO
Aos amigos aqui reunidos eu gostaria de deixar o meu testamento. Digo testamento visto que ao completar setenta, por mais que pareça óbvio, já tenho muito mais passado que futuro, portanto acho que seja hora de prestar contas e externar meus sentimentos e desejos.
Fiz poucos amigos ao trilhar essa sinuosa estrada da vida, mas os que fiz são de qualidade, uns já partiram e me deixaram o coração em pedaços e com o pesar de nunca mais poder privar da companhia deles, ainda que confesse que o parco tempo que pudemos conviver e partilhar, foi de qualidade. Boa parte dos sobreviventes dessa caminhada está aqui hoje e isso é o que de fato importa. Agradeço por partilharem esse raro momento comigo.
A todos familiares também aqui presentes e aos já se foram como meu pai, minha mãe e meus irmãos, quero deixar os meus agradecimentos pelos ensinamentos, pelo legado, pela minha formação como pessoa. Devo a todos o que sou hoje. Para ilustra isso, citarei uma passagem de uma canção de Gonzaguinha chamada “Caminhos do Coração” que externa esse meu pensamento (quem puder ouvi-la, que o faça):
“…E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas
E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar …”
Com relação ao meu legado, o qual deixarei neste meu testamento aos amigos e familiares é o seguinte - isto aqui é ao mesmo tempo um pedido e uma ordem, quem não cumprir sofrerá as consequências - quando eu partir dessa para lugar Nenhum, não gostaria que ninguém ficasse triste, o que ouso aqui pedir é que celebrem, dancem, toquem e ouça as minhas músicas preferidas, assim estarão me rendendo homenagens. Ouçam Djavan, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Zé Ramalho, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Gonzagão, João do Vale, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Alceu Valença, João Bosco, Raul Seixas, Beto Guedes, Elomar, Novos Baianos, Zeca Baleiro, Zé Lopes, Gal Costa, Bethânia, Rita Ribeiro, Vander Lee, Elis Regina, Rita Lee e outros que tais. Tenham certeza que vivi bem e que por algum tempo ainda habitarei as lembranças daqueles que queiram lembrar de mim.
Eu sempre fui contra velórios e enterros, não os desejo na minha partida para rumo ao Nada. Na minha despedida não haverá nada disso, externei aos meus familiares o desejo de ser cremado e que os únicos sacrificados nesse evento sejam minha mulher e meu filho, isso apenas por não poder ir sozinho, senão os pouparia.
Finalmente gostaria de, novamente, deixar o meu abraço a cada um dos presentes, bem como os meus agradecimentos por terem vindo.
A festa é nossa!
Discurso de Flavio Mota Xavier na festa de seu aniversário


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