quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

COM A PALAVRA - HISTORIETA DE MEU AGRADO - POR ZÉ CARLOS GONÇALVES

 


HISTORIETA DE MEU AGRADO III

               PASSAMENTO 

(... o campinho de futebol - o umbigo do mundo) 


    Passamento se perdeu no tempo e se entranhou de todas as esquisitices, que não havia em outro lugar.

    O seu arruado se perdia em sua exiguidade, encrustado no pé da aterrorizante e inacessível montanha e em "uma duziazinha de casebres", enfeiados em desconjuntado e fantasmagórico abraço, a desembocar no tímido campinho de futebol, que tanto iniciava quanto findava os seus limites.

     O seu poeta, sorumbático e mortício, se derramava em declamações lancinantes, num vaivém compassado, no campinho de futebol, nas noites de sexta-feira, a lhe rasgar o peito com as suas elegias, tão choradas, que lhe maltratavam a alma e melancolizavam, ainda mais, os ouvidos já desacostumados dos cantos dos pássaros.

     Juca, o único filho de Passamento, que passou um tempinho na cidade grande, arranhava uma juntada de sílabas, de agoniar qualquer ouvinte. E, como o mais instruído, dali, se via "um reizinho". E, de tanto ler o único livrinho, que lhe caiu em mão, um gibizinho, velho e ensebado, trouxe para si a certeza de que era um ser sobrenatural. E escolheu ser o "loo-bii-sôo-mi", como bem costumava soletrar. E, nas noites de quinta-feira, coberto com um esfarelento e encardido lençolzinho, grudado às costas, disparava em loucas carreiras, a circundar o teimoso campinho de futebol, de todas as atividades. E o auge de sua performance era um arrastado uivo, uivado de dois em dois minutos, a competir com o assustador chirriar da rasga mortalha, tão assustada quanto o mais desavisado leitor desta historieta. Depois do cansaço de tanta correria e uivos, se abandonava na graminha, já úmida do fino sereno, a se enfeitiçar com a encante lua, a sua ardente e definitiva paixão.

    Madá, a bruxa de ninguém, fazia o seu solitário ritual às terças-feiras. Levava, com certa dificuldade, um caldeirãozinho, "entisnado", as gastas trempes e um punhado de lenha e, na beira do campinho de futebol, acendia o fogo, a esquentar a água, que dizia ser milagrosa. Ali, com a mais sisuda das feições, invocava os seus mestres-guia, em uma cantiga roufenha e sentida; iniciava uma dança desengonçada; e rodava, rodava, rodava até ficar zonza e cair em um sono profundo e agitado, em que balbuciava o ininteligível.

    Os demais, pouquíssimos moradores de Passamento, se mantinham alheios a essas atividades e quase não iam ao onipresente campinho de futebol. O viver para eles já se fazia ausente há muito. Olhavam, e nada viam. Ouviam, e nada escutavam. Diziam, e nada falavam. Se arrastavam, e nada viviam.

    E Passamento se eternizava todo fim de tarde nos lamentos de suas três carpideiras, vindos do campinho de futebol, com as suas ladainhas torturantes, que se faziam a exclusiva e musical trilha dos passamentoenses.

     E, nessa vertigem de vida, Passamento ia seguindo a sua sina, em torno do campinho de futebol, a não se dar conta do passar do tempo ...


         Zé Carlos Gonçalves

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