HITLER EM GUIMARÃES-MA
(O segredo que o mar guardou)
O mar de GUIMARÃES não fala alto. Prefere cochichar. Quando muito, murmura histórias que só os pescadores antigos aprendem a ouvir, de madrugada, entre o balanço da canoa e o cheiro de sal. Porém, naquela manhã de 1944, o oceano resolveu quebrar o pacto do silêncio. Veio do fundo um casco escuro, cansado de atravessar tempos e correntes. Não era baleia, não era pedra, não era lenda — ou talvez fosse tudo isso junto. O povo da praia chamou de monstro. E monstro, ali, sempre foi sinônimo de mistério.
Do ventre enferrujado do submarino surgiram duas figuras deslocadas do mundo. HITLER, reduzido à sombra do que fora, trazia no rosto não mais o delírio do poder, mas o cansaço de quem perdeu a própria história. Ao seu lado vinha EVA BRAUN, com passos leves, como se ainda procurasse jardins onde só havia destroços do tempo.
GUIMARÃES, a Joia da Floresta dos Guarás os recebeu sem alarde, como quem acolhe um resto de naufrágio. O sol fez o que sempre faz: dourou tudo, até o absurdo. O vento espalhou rumores, e os pescadores — cronistas sem papel — deram nome ao espanto antes mesmo de compreender o que viam.
Diziam que HITLER carregava nos ombros o peso de um século inteiro, e que EVA BRAUN era apenas o amor tentando sobreviver à ruína da loucura. Não vieram conquistar nada. Vieram fugir. E não há refúgio mais improvável do que uma vila onde o tempo anda devagar e a maré decide o ritmo do dia.
À noite, contam que o mar voltou a fechar a boca. O submarino desapareceu como quem nunca existiu. HITLER e EVA BRAUN tornaram-se silêncio, como se jamais tivessem pisado naquela areia de GUIMARÃES. Restou apenas a história — meio verdade, meio invenção — dessas que o povo guarda porque explicam menos do que encantam.
Porque o mar, quando quer, não revela fatos. Revela metáforas. E algumas histórias não servem para provar nada — apenas para lembrar que até os nomes mais sombrios, um dia, tentam escapar do próprio passado.
Paul Getty S Nascimento
poeta, compositor, cronista e membro da APL - Academia Pedreirense de Letras



Nenhum comentário:
Postar um comentário